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7 de maio de 2010

Os Segredos (e perigos) do Mar Morto

O Mar Morto é o lago terminal do sistema do rio Jordão, localizado na Jordânia Rift Valley, parte da Fenda Sírio-Africana. É mais baixo lago do mundo (414 m abaixo do nível do mar) e está localizado em um ambiente extremamente árido com uma precipitação anual de 50-100 mm. É também um lagos mais salgados do mundo, com 33,7% de salinidade, cerca de 8,6 vezes mais salgado que o oceano. Apenas o Lago Assal (Djibouti), Garabogazköl e alguns lagos hipersalinos dos vales secos de McMurdo na Antártida (como Don Juan Pond) têm uma maior salinidade.

Isto o torna um ambiente extremamente hostil, onde os animais não conseguem prosperar, daí o seu nome.

A área do Mar Morto tornou-se um importante centro de investigação e tratamento de saúde por várias razões. O rico conteúdo mineral da água, o teor muito baixo de pólen e outros alérgenos na atmosfera, e a baixa radiação ultravioleta do local tornam a região um atrativo para naturalistas em busca de tratamentos alternativos para doenças crônicas como o reumatismo. Por exemplo, pessoas que sofrem de problemas respiratórios e de doenças como fibrose cística parecem se beneficiar do aumento da pressão atmosférica do lugar. Os portadores de afecções dermatológicas, como psoríase, também se beneficiam da capacidade de tomar sol por longos períodos de tempo já que a exposição aos raios UV do sol são reduzidos (devido à sua posição abaixo do nível do mar).

No início do século 20 o Mar Morto começou a atrair o interesse de químicos que descobriram que o mar era um depósito natural de potássio, bromo e outros tipos de sais. Devido à popularidade, interesse terapêutico e às propriedades "curativas" desses sais, várias empresas passaram a explorar as matérias-primas do lugar para a produção de produtos com supostas atividades medicinais.

Mas o que isso tem a ver com psiquiatria? Muito.

Até meados do século 20, quando foi retirado da composição de vários produtos médicos, o brometo era considerado responsável por cerca de 5-10% das internações em hospitais psiquiátricos nos Estados Unidos.

O brometo tem propriedades sedativas e anticonvulsivantes. Sua meia-vida é longa (10 a 12 dias!) e em níveis elevados, substitui o cloreto nos mecanismos de condução neuronal, na estabilização da membrana, prejudicando a transmissão de impulsos nervosos. Como o brometo é identificado como cloreto na grande maioria dos kits de laboratório, os pacientes com intoxicação por brometo, muitas vezes, apresentam hipercloremia associado a um ânion gap negativo.



Fonte: Pimentel et al. Quim. Nova, Vol. 29, No. 5, 1138-1149, 2006.

A intoxicação por brometo apresenta-se clinicamente como um quadro neuropsiquiátrico caracterizado por alteração de comportamento, agitação, labilidade emocional, alucinações, fala pastosa, convulsões e coma. Cerca de 35% dos pacientes também apresentam lesões dermatológicas, basicamente erupções acneiformes grosseiras, placas granulomatosas e, eventualmente, úlceras (o tórax e face são o locais de preferência).

O The American Journal of Medicine de março de 2010 traz um relato de caso de um paciente de 57 anos que chegou ao hospital com mal-estar geral, desorganização do pensamento, humor lábil e fala arrastada. Ele negou consumo de drogas ou qualquer medicação. Os exames iniciais revelaram nível de cloreto elevado (>175 mEq/L) e um ânion gap negativo (-55 mEq/L). Devido a estes valores laboratoriais anormais, alguém muito sagaz de plantão suspeitou de "bromismo" (intoxicação por brometo). Testes adicionais confirmaram um nível sérico muito elevado de brometo (32 mEq/L).


A figura mostra os níveis séricos de Na+, Cl- e Br+ durante a evolução clínica.
Fonte: The American Journal of Medicine, Vol 123, No 3, March 2010

Uma anamnese mais detalhada revelou que o paciente comprava sal do Mar Morto pela internet e o consumia em grandes quantidades com o objetivo de rejuvenescer. Ele melhorou com hidratação profusa com soro fisiológico e uso furosemida e recebeu alta após cinco dias no hospital.

ResearchBlogging.orgTaylor BR, Sosa R, & Stone WJ (2010). Bromide toxicity from consumption of dead sea salt. The American journal of medicine, 123 (3) PMID: 20193810

30 de abril de 2010

“And Tango Makes Three”

"Não julgueis, para que não sejais julgados." (Mateus 7:1)

Roy e Silo são dois pinguins de barbicha (Pygoscelis antarctica), do sexo masculino, que vivem no aquário do zoológico do Central Park em Nova York. Em 1999, seus tratadores perceberam que ambos tentavam, em vão, chocar uma rocha ao invés de um ovo. Pouco tempo depois, um ovo abandonado por um outro casal de pinguins foi entregue aos dois pelos tratadores. Roy e Silo foram bem sucedidos e a cria, chamada Tango, cresceu saudável.



A união de Roy e Silo virou livro infantil, “And Tango Makes Three”, escrito por Peter Parnell e Justin Richardson e publicado em 2005. Os autores narram os 6 anos de convivência dos pinguins incluindo a criação de Tango. O livro não só gerou polêmica obviamente, como foi banido das escolas em vários estados norte-americanos.

Essa semana o Superior Tribunal de Justiça reconheceu em decisão inédita, o direito a adoção de crianças por casais gays. Para o padre Luiz Antônio Bento, assessor da comissão para vida e família da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a decisão tira da criança a possibilidade de crescer em um ambiente familiar formado por pai e mãe.

A Igreja Católica Romana se posiciona da seguinte maneira quanto ao homossexualismo:

"(A pessoa homossexual) não deve ser discriminada em razão dessa mórbida tendência, mas advertida energicamente para que jamais freqüente ambientes que lhe sirvam de ocasião próxima de pecado."

"Por outro lado, a prática homossexual, ou seja, manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, constitui um pecado abominável aos olhos de Deus, daqueles que a Igreja classifica como pecados que clamam a Deus por vingança".

Segundo o professor Luiz Mott, do departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, a homofobia é uma "epidemia nacional". Ele assevera que o Brasil esconde uma desconcertante realidade: "é o campeão mundial em assassinatos de homossexuais, sendo que a cada três dias um homossexual é barbaramente assassinado, vítima da homofobia".

A Congregação para a Doutrina da Fé, nas Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais (2003), relembra que:


“Como a experiência confirma, a falta da bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças eventualmente inseridas no interior dessas uniões. Falta-lhes, de fato, a experiência da maternidade ou paternidade. Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano. Não há dúvida que uma tal prática seria gravemente imoral e por-se-ia em aberta contradição com o princípio reconhecido também pela Convenção internacional da ONU sobre os direitos da criança, segundo o qual, o interesse superior a tutelar é sempre o da criança, que é a parte mais fraca e indefesa”.


A mesma Igreja Católica na figura do bispo alemão Joseph Ratzinger, atualmente o papa Bento XVI, encobriu um sacerdote americano que abusou de aproximadamente 200 meninos surdos entre 1950 e 1974, em uma escola para crianças surdas de Wisconsin. O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, rebateu dizendo que a pedofilia não é exclusividade da Igreja Católica.

Acontece que as crianças aprendem com os adultos, normalmente e primeiramente dentro de seus lares, as maneiras de reagirem à vida e viverem em sociedade. As noções de direito e respeito aos outros, a própria auto-estima, as maneiras de resolver conflitos, frustrações ou de conquistar objetivos, tolerar perdas, enfim, todas formas de se portar diante da existência são profundamente influenciadas durante a idade precoce. É assim que muitas crianças abusadas, violentadas ou negligenciadas na infância se tornam agressoras na idade adulta (Ballone GJ, Ortolani IV - Violência Doméstica).

E o periódico "O Parasita" dos alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP dá prêmios a quem joga fezes em homossexuais...

Para os mais curiosos sobre a influência da religião no comportamento humano, sugiro o post "Why religion can lead to racism", do excelente Blog "Epiphenom".

23 de abril de 2010

A Revolta da Vacina (1904/2010)

Desde as últimas semanas uma enxurrada de jornais, blogs e revistas científicas, e o próprio Ministério da Saúde tentam desalarmar a população sobre um possível efeito deletério da vacina contra o vírus da gripe H1N1. Por ignorância de alguns e arrogância de outros, o email (SPAM) que circula pelo Brasil, quiça pelo mundo, perpetua o medo e a desinformação sobre a vacina.

O fato é que os dados do Ministério da Saúde, liberados na semana passada, revelam que somente 50% das gestantes (principal grupo de risco e grupo com maior mortalidade) procuraram os postos de saúde para tomar a vacina. Muitos desinformados, e aqui incluo médicos (ginecologistas inclusive), divulgam que a vacina é de risco para o feto, outro absurdo. Alguns populares mostram-se, nitidamente, revoltados contra essa conspiração de pessoas que "injetam" vírus indiscriminadamente, como que inoculando uma sentença de desgraças e mau agouro na população. Para quem não se lembra, dadas as proporções, isso não é novidade no Brasil.

Em 1904, Oswaldo Cruz, propôs um projeto de vacinação obrigatório contra a varíola, doença que assolava o Rio de Janeiro e a maioria das cidades brasileiras. Para erradicar a doença, o sanitarista convenceu o Congresso a aprovar a Lei da Vacina Obrigatória que permitia que brigadas sanitárias, acompanhadas por policiais, entrassem nas casas para aplicar a vacina à força.

Resultado:

"Jornais da oposição criticavam a ação do governo e falavam de supostos perigos causados pela vacina. Além disso, o boato de que a vacina teria de ser aplicada nas "partes íntimas" do corpo (as mulheres teriam que se despir diante dos vacinadores) agravou a ira da população, que se rebelou. Os acontecimentos, que tiveram início no dia 10 de novembro de 1904, com uma manifestação estudantil, cresceram consideravelmente no dia 12, quando a passeata de manifestantes dirigia-se ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal. A população estava alarmada. No domingo, dia 13, o centro do Rio de Janeiro transforma-se em campo de batalha: era a rejeição popular à vacina contra a varíola que ficou conhecida como a Revolta da Vacina, mas que foi muito além do que isto."

A reação popular levou o governo a suspender a obrigatoriedade da vacina e a declarar estado de sítio em 16 de novembro. A rebelião foi contida, deixando 50 mortos e 110 feridos. Centenas de pessoas foram presas e, muitas delas, deportadas para o Acre.

"Ao reassumir o controle da situação, o processo de vacinação foi reiniciado, tendo a varíola, em pouco tempo, sido erradicada da capital."

Revoltas à parte, vamos aos fatos. A revista Nature deste mês de abril traz o resultado dos estudos que avaliaram mortalidade, anos de vida perdidos pela infecção e o impacto do início da vacinação contra o H1N1 na Austrália. Os gráficos falam por si, mas claramente o início da vacinação na Austrália diminuiu incidência dos casos de gripe por H1N1.
Fonte: Nature 464, 1112-1113 (2010)

O grafico de barras acima revela que a mortaliadde estimada pelo vírus H1N1 é semelhante ao da gripe comum (atingindo porém pessoas mais jovens e gestantes, pelos dados da OMS). Entretanto, o impacto da epidemia de 2009 é bem explicitado pela quantidade de anos de vida perdidos pela infecção (uma medida de mortalidade prematura), superior aos dos outros tipos de gripe.

Fonte: Nature 464, 1112-1113 (2010)

O início da vacinação na Australia reduziu sensivelmente a incidência de casos novos de H1N1, porém nota-se claramente no gráfico acima que a vacinação começou ao final da epidemia de 2009, tendo pouco impacto na mortalidade deste ano.

Vistos os fatos vamos aos esclarecimentos, retirados do site do Ministério da Saúde, no portal do cidadão.

O mercúrio presente na vacina causa autismo em crianças?
Não. A concentração de mercúrio é de 25 microgramas por dose de 0,5ml e é usada para evitar crescimento de fungos ou bactérias, no caso de a vacina ser contaminada acidentalmente na hora da punção repetida no frasco multi-dose. Esse mesmo conservante é utilizado rotineiramente em outras vacinas, como na Tetravalente indicada contra Difteria, Tétano, Coqueluche, Meningite e na Tríplice Viral, vacina contra Caxumba, Rubéola e Sarampo.

O timerosal, conservante antiséptico presente na vacina, pode causar autismo em crianças com disfunção mitocondrial e em adultos com disfunção hematoencefálica?
Estudos realizados em todo o mundo demonstram que o timerosal, desde 1930, tem sido amplamente utilizado como conservante e numa série de produtos biológicos, incluindo muitas vacinas. O uso nas vacinas tem por finalidade evitar o crescimento de bactérias ou fungos, quando esta é contaminada acidentalmente, como no caso de punção repetida no frasco multidose. Vacinas com estes tipos de conservantes já são utilizadas desde 1930. Algumas delas são: DPT, Tetravalente,Febre Amarela, Dupla Viral, Triviral. Em 2004, o Instituto de Medicina dos Estados Unidos convocou um comitê de Revisão de Segurança em Imunização examinou a hipótese de que as vacinas, contendo timerosal, estariam causalmente associadas ao autismo e comprovou que as provas disponíveis rejeitam a existência de nexo de causalidade entre vacinas contendo timerosal e autismo.

A vacina contém esqualeno, substância que afeta o sistema imunológico do indivíduo?
Os adjuvantes são substâncias que estimulam a resposta imunitária, permitindo reduzir a quantidade de material viral utilizado em cada dose e conferir proteção de longa duração. São produtos entre os quais se incluem certos sais de alumínio e emulsões (esqualeno e seus derivados) que são utilizados na composição de vacinas. E não causam danos ao ser humano.

A vacina contém células cancerígenas de animais que podem causar câncer em humanos?
Não. Isso é boato irresponsável.

Indústrias farmacêuticas receberam imunidade judicial quanto a ações ocasionadas por efeitos da vacina, como morte e invalidez?
Não temos essa informação. Vale registrar que o Ministério da Saúde, Agência Vigilância Sanitária e os laboratórios produtores detentores do registro são responsáveis por registrar, acompanhar e avaliar os casos de eventos adversos associados à vacinação.

Não há comprovação de que somente uma dose da vacina seja efetiva?
Errado. Estudos comprovam que a vacina é efetiva com uma dose única. As crianças entre 6 meses e menores de 2 anos devem tomar duas meias doses da vacina contra a Influenza H1N1, sendo que a segunda meia dose da vacina é aplicada 30 dias depois da primeira meia dose, para estarem protegidas do vírus da Influenza H1N1.

A gripe pandêmica foi uma criação da indústria financeira, uma vez que surgiu em plena crise mundial. Ela foi criada só para favorecer os laboratórios farmacêuticos, que vão ganhar mais dinheiro com a fabricação e venda de remédio e vacinas?
A situação epidemiológica da gripe no mundo e no país é monitorada de forma sistemática e real. O Brasil utiliza de Sistema de Vigilância Sentinela de Influenza desde 2000. Atualmente com 62 unidades de saúde responsáveis pela coleta de amostras e organização de dados epidemiológicos agregados por semana epidemiológica. O monitoramento por este sistema identificou em 2009 que, desde o surgimento da pandemia, aproximadamente 70% dos vírus respiratórios que causavam síndrome gripal era o vírus influenza pandêmica (H1N1) 2009. Em alguns países este percentual chegou até 100%.

Há evidências de má formação fetal em gestantes que tomaram a vacina?
A vacina contra o vírus influenza pandêmico (H1N1) 2009 é segura e indicada para a gestante em qualquer idade gestacional. Na vacinação realizada no hemisfério norte não houve nenhum registro de má formação fetal relacionada a vacina. Esta indicação foi ratificada pela Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia - Febrasgo. Até o momento, não há relato de ocorrência de nenhum prejuízo sequer para a mãe e/ou para o feto.

ResearchBlogging.orgButler, D. (2010). Portrait of a year-old pandemic Nature, 464 (7292), 1112-1113 DOI: 10.1038/4641112a

 
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